4. O LAGO DE KYTHERA

“Algumas águas refletem rostos. Outras refletem memórias.”

5/30/20262 min read

Kyra acordou assustada.

A respiração curta.

As mãos tremendo levemente contra o lençol.

Por alguns segundos ela permaneceu imóvel no escuro, tentando entender onde estava.

Porque ainda conseguia ouvir os gritos.

Ainda conseguia sentir o chão tremendo.

As luzes vermelhas.

O som metálico.

A fumaça.

E alguém segurando sua mão enquanto mandava ela correr.

  1. 4. O lago de Kythera

“Algumas águas refletem rostos. Outras refletem memórias.”


Kyra acordou assustada.

A respiração curta.

As mãos tremendo levemente contra o lençol.

O problema era que o rosto desaparecia toda vez que ela tentava lembrar.

Como um sonho tentando fugir antes do amanhecer.

Kyra levou lentamente a mão até o peito.

Doía.

Não fisicamente.

Algo pior.

Como saudade de alguma coisa que ela nem sabia se realmente existiu.

O quarto permanecia silencioso.

Mas ela odiava o silêncio depois daqueles sonhos.

Então levantou.

Precisava esfriar a cabeça.

Precisava respirar.

Precisava do lago.

O lago de Kythera era bonito demais para um lugar seguro.

Talvez fosse exatamente isso que incomodasse Helena.

As águas escuras refletiam as luzes da cidade distante enquanto pequenas ondas tocavam lentamente as pedras claras da margem. Debaixo da superfície, criaturas luminosas atravessavam o lago em silêncio, deixando rastros azulados que pareciam constelações afundadas.

Às vezes o lago inteiro parecia respirar.

E então os sons começavam.

Baixos.

Longos.

Quase musicais.

As criaturas emitiam frequências suaves que atravessavam a água como ecos antigos demais para serem compreendidos completamente.

Kyra adorava aquele lugar.

Sentava perto da margem por horas, jogando pedras na água, tentando adivinhar nomes para as criaturas ou inventando teorias absurdas sobre elas.

Às vezes falava com os seres luminosos como se realmente esperasse resposta.

O mais assustador era que, em Kythera, aquilo nem parecia tão estranho.

Helena tentava manter distância.

Tentava não chegar perto demais da água.

Porque o lago fazia alguma coisa com ela.

Não era exatamente uma voz.

Nem um som.

Era pior.

Parecia reconhecimento.

Como se alguma coisa escondida sob as águas percebesse sua presença toda vez que ela se aproximava.

E as criaturas…

Sempre olhavam por tempo demais.

Não com agressividade.

Não com medo.

Mas com aquela curiosidade silenciosa que faz alguém sentir que entrou num lugar onde não deveria estar.

Helena nunca comentava isso com Kyra.

Porque Kyra provavelmente responderia:
“talvez elas só gostem de você.”

Como se isso fosse tranquilizador.

Mesmo assim, Helena continuava voltando.

Talvez porque Kythera inteira parecesse construída sobre coisas impossíveis.

Ou talvez porque, perto daquele lago, a dor dentro do peito dela diminuísse um pouco.

Mesmo quando o medo continuava ali.

Quieto.

Esperando junto com as criaturas sob a água.