3. A Garota, o Ovo e o Crime

“Em defesa da Kyra: deixar o ovo sozinho parecia triste.”

5/30/20262 min read

Kyra já estava acordada quando Helena abriu os olhos.

O que não era exatamente surpreendente.

Kyra dormia pouco.

E aprontava muito.

Uma combinação extremamente preocupante.

— Você acorda cedo demais.

Kyra, sentada perto da janela quebrada do esconderijo, virou lentamente na direção dela.

E sorriu.

Não um sorriso normal.

Era aquele sorriso específico.

3. A Garota, o Ovo e o Crime

“Em defesa da Kyra: deixar o ovo sozinho parecia triste.”


O sorriso de:

“eu fiz alguma coisa e provavelmente você não vai gostar.”

O estômago de Helena afundou imediatamente.

— O que você fez?

Kyra se levantou dramaticamente, quase tropeçando no próprio cobertor no processo.

— Tenho um motivo.

Antes que Helena pudesse responder, alguma coisa foi cuidadosamente colocada sobre suas mãos.

Morna.

Leve.

O coração dela parou antes mesmo dos olhos focarem direito.

O ovo.

Por um segundo, Helena realmente considerou a possibilidade de ainda estar sonhando.

— Você…

A voz falhou completamente.

Ela ergueu os olhos devagar.

— Você conseguiu.

Kyra deu de ombros como se tivesse simplesmente comprado pão na esquina.

— Eu disse que ia conseguir.

Helena sentou rápido demais.

— Você ROUBOU isso?!

Kyra colocou a mão no peito imediatamente, ofendida.

— “Roubou” é uma palavra muito agressiva.

— Kyra.

— Eu só peguei antes de pagar.

Helena ficou encarando ela em silêncio.

Kyra desviou o olhar.

O sorriso diminuiu só um pouquinho.

— Eu sei que foi errado.

Silêncio.

Então ela cruzou os braços baixinho.

— Só parecia errado deixar ele sozinho lá.

Aquilo destruiu completamente a vontade de Helena de continuar brigando.

Ela voltou a olhar para o ovo.

Ele pulsava devagar entre seus dedos.

Como um coração pequeno tentando acordar.

O peito dela apertou tão forte que chegou a doer.

Antes mesmo de perceber o que estava fazendo, Helena abraçou Kyra com força.

Forte demais.

Kyra soltou um som abafado de sofrimento imediato.

— Helena… pulmão… órgãos importantes…

Helena afrouxou os braços na mesma hora.

— Desculpa!

Kyra caiu dramaticamente para trás no colchão improvisado.

— Quase morri sendo heroína.

Helena acabou rindo.

Uma risada pequena.

Cansada.

Mas real.

E aquilo fez Kyra sorrir também.

Por alguns segundos, as duas ficaram em silêncio.

O tipo bom de silêncio.

Lá fora, Kythera começava a acordar.

Naves cruzavam lentamente os céus entre os prédios.

Luzes acendiam nas ruas suspensas.

Kyra observou o ovo por alguns segundos antes de falar:

— Acho que ele gosta de você.

Helena olhou para a pequena esfera escura em suas mãos.

— Acho que eu gosto dele também.

Kyra imediatamente apoiou o rosto nas mãos.

— Então temos um problema.

Helena suspirou.

— Qual?

Kyra abriu um sorriso perigosamente animado.

— Criaturas recém-nascidas precisam comer.

Silêncio.

Helena ergueu os olhos devagar.

— Você sabe o que ele come?

— Absolutamente não.

Helena encarou o ovo outra vez.

Depois Kyra.

Depois o ovo de novo.

— Nós vamos morrer.

— Provavelmente.

O pior era que Kyra parecia confortável demais com essa possibilidade.

Helena ficou observando o ovo por mais alguns segundos.

Estranho.

Ela ainda não sabia o que tinha ali dentro.

Mas, pela primeira vez em muito tempo…

alguma coisa parecia dela.

De repente, Kyra levantou tão rápido que quase bateu a cabeça na parede.

— Vem.

— Pra onde?

Ela apontou dramaticamente para fora.

Helena empurrou ela antes mesmo de perceber.

Kyra começou a rir enquanto quase tropeçava para fora do esconderijo.

E, pela primeira vez em muito tempo…

a ideia do amanhã não parecia tão assustadora.