2. O ovo

“Duas crianças perdidas. Um ovo estranho. O que poderia dar errado?”

5/30/20263 min read

Meses depois, Kyra continuava aparecendo nos lugares mais aleatórios possíveis.

Telhados.

Mercados.

Janelas.

Uma vez, Helena encontrou Kyra saindo de dentro de um contêiner metálico enquanto mastigava alguma coisa azul brilhante.

Helena imediatamente estreitou os olhos.

— O que é isso?

Kyra olhou para o objeto pensativa.

— Honestamente? Não faço ideia.

Helena parou de andar.

O ovo

“Duas crianças perdidas. Um ovo estranho. O que poderia dar errado?”

— Então por que você tá comendo isso?

Kyra deu de ombros como se fosse óbvio.

— Curiosidade.

Naquela tarde, as duas atravessavam um mercado suspenso cheio de fumaça, fios pendurados e pessoas atravessando as barracas apertadas, quando Helena simplesmente parou de andar.

Kyra quase bateu nas costas dela.

— O quê?

Helena apontou devagar para uma das barracas.

Entre peças metálicas antigas, lanternas quebradas e caixas desmontadas…

havia um ovo.

Pequeno.

Escuro.

O peito de Helena apertou imediatamente.

Estranho.

Como se ela conhecesse aquilo.

Como se alguma coisa lá dentro estivesse esperando por ela há muito tempo.

Kyra inclinou a cabeça.

— Um ovo?

Helena não respondeu.

Já estava andando em direção à barraca.

Cada passo parecia mais pesado.

Mais certo.

— Helena?

Ela mal ouviu a voz de Kyra.

Quando percebeu, suas mãos já estavam apoiadas sobre a superfície do ovo.

Frio.

E vivo ao mesmo tempo.

Uma sensação atravessou seu corpo tão rápido que ela perdeu o ar.

— Ah…

A voz veio calma.

Suave.

Uma mulher observava as duas do outro lado da barraca.

Usava roupas longas atravessadas por pequenos fios luminosos e tinha olhos cansados.

Olhos de quem parecia ter visto coisas demais.

Helena afastou as mãos rapidamente.

— Desculpa.

A mulher apenas inclinou a cabeça.

— Não precisa pedir desculpas.

Kyra imediatamente apareceu ao lado de Helena.

A mulher olhou primeiro para Helena.

Depois para o ovo.

— Certas criaturas escolhem antes mesmo de nascer.

O estômago de Helena apertou.

— Criatura?

— Ele não é um animal comum.

A mulher apoiou o cotovelo no balcão.

— O problema é que ovos como esse quase nunca chocam.

Kyra cruzou os braços.

— Por quê?

— Energia demais.

Ela apontou para o ovo.

— Eles precisam de um catalisador muito forte… ou de alguém com energia mental absurda para sobreviver ao nascimento.

Helena voltou a olhar para o ovo.

Algo dentro dele parecia…

sozinho.

Esperando.

A mulher sorriu de lado.

— Honestamente? Pra maioria das pessoas isso aí é só um peso caro.

Kyra apontou imediatamente para Helena.

A mulher continuava observando Helena daquele jeito estranho.

Como se tentasse reconhecer alguma coisa.

Aquilo deixou Helena desconfortável.

Então a mulher falou:

— Posso fazer um desconto.

Os olhos de Helena levantaram imediatamente.

Kyra abriu um sorriso vitorioso antes mesmo do preço.

— Sabia.

Então a mulher falou o valor.

E o coração de Helena afundou na mesma hora.

Kyra lentamente parou de sorrir.

Helena olhou novamente para o ovo.

Por um instante…

ela realmente quis ficar com ele.

Mais do que qualquer outra coisa havia muito tempo.

Mas devolveu o ovo devagar e apertou as mãos contra a própria roupa.

— Desculpa.

A voz saiu baixa.

— Eu não tenho isso.

A mulher não insistiu.

Só pegou o ovo de volta cuidadosamente.

— Eu imaginei.

Kyra ficou em silêncio.

O que era raro.

Muito raro.

As duas saíram da barraca sem dizer nada por vários minutos.

As luzes do mercado refletiam no chão metálico enquanto pessoas esbarravam nelas o tempo inteiro.

Mas Helena mal percebia.

Tentava fingir que não se importava.

Tentava muito.

Kyra andava alguns passos atrás dela agora.

Quieta.

Observando.

O que era pior.

— Helena.

— Hm?

Kyra colocou as mãos nos bolsos.

— Quanto exatamente você gostou daquele ovo?

Helena continuou olhando para frente.

— Não importa.

— Isso não respondeu nada.

Ela soltou um suspiro baixo.

— Parecia que ele estava sozinho.

Kyra ficou em silêncio outra vez.

E dessa vez o sorriso dela não voltou.

O que deveria ter preocupado Helena.