1. As duas garotas perdidas em Kythera

“Talvez duas pessoas perdidas consigam encontrar o caminho juntas.”

Luana M. Rodrigues

5/30/20263 min read

Kyra viu a garota antes mesmo dela perceber.

Ela estava sentada sozinha perto da via suspensa, observando as naves atravessarem os céus de Kythera como se estivesse muito longe dali.

Kyra inclinou levemente a cabeça.

Tinha cabelos castanhos ondulado, óculos, algumas mechas rosadas escapavam perto das orelhas quando o vento passava.

Ela também cruzava os braços daquele jeito específico de quem queria parecer corajosa…

mas claramente só estava desconfortável.

Kyra achou aquilo imediatamente interessante.

Porque pessoas normais em Kythera:
gritavam,
corriam,
roubavam,
ou tentavam sobreviver.

AS DUAS GAROTAS PERDIDAS DE KYTHERA

“Talvez duas pessoas perdidas consigam encontrar o caminho juntas.”


Mas aquela garota parecia apenas…

triste.

E crianças tristes sempre chamavam atenção de Kyra.

Enquanto isso, Helena ainda observava as luzes refletindo nas águas lá embaixo quando sentiu alguém parar perto dela.

Levantou os olhos devagar.

E esqueceu completamente o que estava pensando.

A garota tinha cabelos brancos.

Não grisalhos.

Brancos mesmo.

Bagunçados como nuvem depois de tempestade.

Os olhos brilhavam daquele jeito inquieto de criança que parecia pronta para fazer pergunta atrás de pergunta sem respirar no meio.

Ela parecia pequena.

Fofa.

E perigosamente energética.

Como aqueles animaizinhos luminosos de Kythera que pareciam adoráveis até começarem a correr pelas paredes.

Helena teve a impressão imediata de que aquela garota provavelmente causava problemas profissionais.

E então a desconhecida apertou a testa dela com o dedo.

Ploft.

Helena piscou lentamente.

A garota ficou séria.

Muito séria.

— Hm.

Ploft.

Ela apertou de novo.

— Confirmado.

Helena continuou encarando ela em silêncio.

— O quê?

A garota assentiu sozinha.

Completamente satisfeita.

— Você é estranha.

Helena continuou olhando para ela por alguns segundos.

— Você saiu cutucando desconhecidos na rua pra descobrir isso?

— Às vezes funciona.

Ela respondeu com tanta naturalidade que Helena demorou um instante para perceber que aquilo provavelmente não era piada.

Então, sem pedir permissão, a garota simplesmente se jogou ao lado dela no banco metálico como se fossem amigas havia anos.

As pernas pequenas começaram a balançar imediatamente.

— Você tava olhando pro nada faz uns dez minutos.

— Eu não tava olhando pro nada.

— Tava sim.

— Não tava.

A garota apontou para frente.

— Então o que tinha ali?

Helena abriu a boca.

Parou.

Olhou novamente para a cidade.

Silêncio.

— …não sei mais.

A garota abriu um sorriso vitorioso.

— Exatamente.

Helena revirou os olhos pela primeira vez em muito tempo.

Kythera brilhava sob a névoa azulada daquela noite.

Pontes suspensas atravessavam os prédios iluminados.

Luzes refletiam nas águas escuras muito abaixo da cidade.

Naves cruzavam os céus deixando rastros luminosos entre as torres.

Mesmo assim…

aquele lugar ainda parecia grande demais para Helena.

A garota ao lado continuava observando tudo como se o mundo inteiro fosse interessante.

— Você mora por aqui? — ela perguntou.

— Mais ou menos.

— Isso não respondeu nada.

— Eu sei.

Ela virou o rosto lentamente.

— Você sempre responde desse jeito?

Helena cruzou os braços.

— Você sempre cutuca pessoas desconhecidas?

— Só as interessantes.

Aquilo pegou Helena desprevenida.

Uma sirene ecoou longe entre os prédios.

Automaticamente, Helena puxou o capuz da roupa.

A garota percebeu na mesma hora.

— Relaxa. Esses guardas nunca pegam ninguém rápido.

Mesmo assim, Helena continuou olhando para a rua.

O estômago apertou.

— Crianças estranhas desaparecem em Kythera — ela falou baixo.

O sorriso da garota diminuiu só um pouco.

— Eu sei.

Helena finalmente virou o rosto para ela.

— Você sabe?

Ela deu de ombros.

— Também sou caçada.

Aquilo fez o peito de Helena apertar estranho.

— Pelos guardas?

— Pelos guardas… algumas criaturas… uma vez um velho tentou me prender dentro de uma máquina gigante…

Ela ficou pensativa por alguns segundos.

Muito pensativa.

— Pensando agora, minha vida é meio preocupante.

Helena encarou ela sem acreditar.

— E você não tem medo?

A garota levantou o queixo imediatamente.

— Não.

Fez uma pausa dramática.

Muito dramática.

— Kyra é forte e corajosa.

No mesmo segundo, alguma coisa caiu violentamente atrás delas.

CLANG!

Kyra soltou um grito assustado e praticamente pulou em cima de Helena.

Uma criatura pequena atravessou correndo o beco.

Parecia um gavri.

Pequeno, escuro como sombra, com olhos azuis brilhantes, asas translúcidas atravessadas por pequenos veios luminosos e uma cauda longa e peluda.

Helena achava gavris lindos.

Eles se moviam leves demais.

Silenciosos demais.

Kyra continuava agarrada no braço dela.

— Era só um bichinho — Helena falou.

Kyra continuou encarando o beco.

— Eu sabia disso.

— Você quase morreu.

— Estratégia defensiva.

— Você pulou em cima de mim.

A criatura soltou um pequeno miado metálico antes de desaparecer entre os becos.

Kyra finalmente soltou Helena.

Tentou recuperar a dignidade.

Não conseguiu.

As duas ficaram em silêncio por alguns segundos.

E, pela primeira vez em muito tempo…

aquele silêncio não parecia vazio.

Kyra era diferente.

Diferente de todo mundo que Helena tinha conhecido em Kythera.

Talvez porque parecesse tão perdida quanto ela.

Talvez porque transformasse medo em piada.

Talvez porque falasse como se o mundo inteiro fosse uma aventura prestes a dar errado.

E, por algum motivo…

isso fazia o peito de Helena doer menos.